Existem mil maneiras de frequentar um estádio…
…inclusive como morador! O blog Thank God for Football deu o furo aqui no Brasil, e Lysiê Reis (professora da UEFS) nos repassou esta maravilha: um estádio inteiro transformado em conjunto residencial.
A história
O Arsenal Football Club, um dos mais tradicionais times de Londres, mudou-se em 1913 de Plumstead, no sul da cidade, para Highbury, ao norte. Teve de deixar seu tradicional estádio Manor Ground, onde o time jogara de 1888 até então, e alugar às pressas o campo do St John’s College of Divinity para continuar seus jogos.
Com rápido projeto de Archibald Leitch, arquiteto de diversos outros estádios do período, o Arsenal Stadium foi inaugurado antes mesmo de ter suas obras terminadas, já para a temporada 1913-1914. Em 1925 o Arsenal comprou definitivamente o campo por 64.000 libras, deixando de pagar as 20.000 libras de aluguel; isto abriu a possibilidade de reformas mais profundas, realizadas entre 1932 e 1936 com projeto de Claude Waterlow Ferrier e William Binnie.
Novos portões em estilo art déco foram construídos e a capacidade foi aumentada, permitindo público que variava entre cerca de 60.000 até o recorde de 73.295, registrado numa partida contra o Sunderland F. C. em 1935. Pouco restou do antigo projeto de Archibald Leitch após as reformas, e pouco se alterou no estádio por mais de cinquenta anos.
Após o desastre de Hillsborough, um dos piores da história do futebol mundial (com 96 mortos), a Inglaterra resolveu, dentre outras coisas, transformar todos os lugares dos estádios em cadeiras, de forma a não haver mais ninguém em pé nos estádios. Isto reduziu a capacidade do Arsenal Stadium para exatos 38.419 lugares, o que o tornou obsoleto; além disso, a expansão era dificultada pelo caráter residencial de toda a área do entorno e pelo tombamento da fachada Leste do estádio. Por diversas vezes o Arsenal se viu obrigado a jogar em Wembley. Por tudo isso, o Arsenal resolveu construir outro estádio, e em 2006 foi inaugurado o Emirates Stadium.
O conjunto
Até recentemente o estádio estava passando por reformas para transformá-lo num conjunto residencial chamado Highbury Square. Eis algumas de suas características:
a) apartamentos de um, dois e três quartos;
b) coberturas exclusivas;
c) jardins centrais em área de 8.094 metros quadrados, no local do antigo campo;
d) portaria 24 horas;
e) terraço/varanda na maioria dos apartamentos;
f) garagem subterrânea;
g) academia de ginástica com piscina;
h) próximo de lugares centrais de Londres (7min até King’s Cross, 15 min até Picadilly); e
i) próximo de várias estações de metrô (Arsenal, Drayton Park, Moorgate).
Os apartamentos têm entre 45 a 102 metros quadrados, mas só tem direito a uma tetéia dessas quem tem a partir de 325 mil libras, ou a partir de R$ 1 milhão.
O comentário
Assim que li esta notícia pensei: “mas por que não se faz algo assim para transformar imóveis vazios em casas para quem não tem?”
O Plano Municipal de Habitação 2008-2025 da prefeitura de Salvador, citando o Censo IBGE 2000 e estudos da Fundação João Pinheiro, diz explicitamente que o déficit habitacional quantitativo básico (ou seja, casas necessárias para que todos tenham casa e não precisem de aluguel, morar de favor ou em barraco etc.) é de 81.429 imóveis (vejam na página 26 do Plano), enquanto o mesmo Censo e os mesmos estudos registram 89.405 imóveis vazios em Salvador (vejam na página 18 do Plano).
Se estes imóveis vazios fossem arrecadados pelo Município como bens vagos – o que não é o caso com todos eles – e postos para cobrir este déficit, sobrariam ainda 7.976 imóveis para cuidar do déficit previsto graças ao crescimento demográfico.
Isto serviria, inclusive, para que o Município garanta para a realização das metas do Plano Municipal de Habitação um dos únicos recursos que diz ter: “aporte de terra para os empreendimentos”.














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